terça-feira, 8 de dezembro de 2015

SOCIOLOGIA: Anotações sobre seu surgimento, precursores e relação com as outras Ciências Sociais

1. Primórdios da Sociologia: Contexto histórico, social, político e económico

“Filha da modernidade, a sociologia nasceu da vontade de compreender a sociedade e o facto social e de agir sobre ambos”.
(Molénat, 2011: 9)

O neologismo “Sociologia” foi usado publicamente, pela primeira vez, em 1839, pelo filósofo francês Augusto Comte (1798-1857), no seu Curso de Filosofia Positiva. Porém, o processo de formação desta ciência cujo nome Comte atribuíra é anterior a esta data e goza de um conjunto de condições sociais, políticas, económicas e intelectuais como pano de fundo (Martins, 1985; Ritzer, 2008).
A Sociologia surgiu da encruzilhada de três revoluções: política (Revolução Francesa), económica (Revolução Industrial) e intelectual (o êxito do racionalismo e da ciência) (Quintaneiro et al, 2003; Molénat, 2011).
A Revolução Industrial, representada pela introdução da máquina a vapor e consequente aperfeiçoamento dos métodos de produção, não só proporcionou o surgimento do capitalismo como também se fez acompanhar de incontáveis consequências sociais: desemprego (causado pela maquinofactura), prostituição, alcoolismo, criminalidade, êxodo urbano, surgimento de bairros de lata e surtos de epidemias causadas pela falta de condições de habitabilidade, etc (Martins, 1985; Ritzer, 2008; Molénat, 2011).
No campo intelectual, registaram-se transformações no modo de pensar: o advento do racionalismo. Filósofos iluministas começaram a sacudir o pó da superstição e da perspectiva sobrenatural que açambarcavam as explicações dos fenómenos sociais.
Inspirados nos ganhos dos métodos utilizados pelas ciências naturais (observação, experimentação, acumulação de dados, etc.), os iluministas, combinando o uso da razão e da observação, analisaram diversos aspectos da sociedade e contribuíram para os ideais que conduziram a Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), à medida que declinavam a concepção de que a organização social é estanque e resultante de forças transcendentes (Martins, 1985; Molénat, 2011).
A Revolução Francesa, sob os ideais iluministas, desferiu golpes contra a Igreja e a sua influência, contra as tradições e normas sociais e vários aspectos sociopolíticos e culturais do Antigo Regime.
Em linhas gerais, a revolução de 1789 foi motivada pelo ideal de abolir radicalmente a antiga forma de sociedade (suas instituições sociais, crenças, hábitos e costumes) e implementar outra, assente na liberdade, igualdade e fraternidade, alicerçada na razão e livre de superstições e crenças infundadas (Martins, 1985).
Dentre as consequências da revolução, são assinaláveis a crise de valores, a anarquia, a perturbação e desorganização sociais que se registaram na sociedade francesa.
A procura de explicações racionais e soluções para as consequências nefastas da industrialização e das insurreições da revolução francesa forneceu um arsenal de conhecimentos sobre a sociedade que facultaram o surgimento desta jovem ciência social baptizada sob o nome de Sociologia. Portanto, pode dizer-se que a Sociologia “é o resultado de uma tentativa de compreensão de situações radicalmente novas, criadas pela então nascente sociedade capitalista [transformações tecnológicas, problemas sociais, lutas de classe, organização do trabalho, etc.] ” (Martins, 1985: 8;16) [Para assistir a um vídeo sobre surgimento da Sociologia, clique aqui].

2. Precursores da Sociologia

Comte atribuiu o nome à ciência e é conhecido mundialmente como o “pai da Sociologia”. Entretanto, este título, embora útil para propaganda desta ciência, é pernicioso e alvo de refutações por parte dos historiadores da Sociologia.
É pernicioso, à medida que tende a ofuscar (sobretudo aos leigos) o facto de o surgimento da Sociologia ter sido uma foi uma produção colectiva e cumulativa. Há que se esclarecer que “a sua criação não é obra de um único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da elaboração de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas situações de existência que estavam em curso” (Martins, 1985: 11). Ou ainda, nas palavras do renomado historiador da Sociologia Pierre-Jean Simon, “a Sociologia não saiu por uma geração espontânea do cérebro de um qualquer pensador” (Simon, s.d: 259).
A expressão “precursores da Sociologia” é utilizada para designar o conjunto formado por pessoas cujas contribuições anunciaram com antecipação o que hoje é chamado de Sociologia (Cuin & Gresle, 1995; Lallement, 2008).
Não há consenso quanto à questão dos precursores da Sociologia entre os historiadores da mesma. Ora são encontrados entre os filósofos da Grécia Antiga. Ora, entre os políticos do Renascimento. Ora somente entre os filósofos, juristas, economistas, historiadores e outros pensadores sociais do Século das Luzes (Ferrari, 1983; Cruin & Gresle, 1992; Ferreira et al., 1995; Aron, 2002; Lallement, 2008).
Da Antiguidade Helénica ao Renascimento, são mencionados os nomes de Platão (427-347[?] a.C), Aristóteles (384-322[?] a.C), Santo Agostinho (354-430), São Tomás de Aquino (1225-1274), Ibn Khaldun (1332-1406), Nicolau Maquiavel (1469-1527), Thomas More (1478-1535), Thomas Campanella (1568-1639), Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), Baruch Spinoza (1632-1677). Dentre estes, grosso modo, são destacados os nomes de Platão, Aristóteles, Ibn Khaldun e Maquiavel.
Por sua vez, antes do ano de eclosão da Sociologia (1839), são mencionados dentre os precursores, os nomes de Charles deMontesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Henri de Saint-Simon (1760-1852) [Para assistir a um vídeo sobre os precursores da Sociologia, clique aqui].

3. Sociologia: Objecto de estudo, método e relação com as outras ciências sociais

Existem inúmeras definições para Sociologia, variando de autor para autor. Mais do que se tratar do que é Sociologia, trata-se do que se entende por Sociologia.
Em linhas gerais, pode dizer-se que Sociologia é o estudo científico dos fenómenos sociais. O seu campo de actividade abrange o estudo dos grupos sociais, da estratificação, da desigualdade, da mobilidade social, dos processos sociais (cooperação, competição e conflito), etc. (Oliveira, 1991; Ferrari, 1983).

Para Emille Durkheim, o objecto de estudo da Sociologia os factos sociais[1]. Por sua vez, para Max Weber, é a acção social.
O sociólogo britânico Morris Ginsberg aponta sumariamente três principais funções para a Sociologia: (1) fornecer o que se pode chamar uma morfologia ou classificação de tipos e formas das relações sociais; (2) determinar a relação entre diferentes partes ou factores da vida social (por ex., os elementos económicos e políticos, morais e religiosos, morais e legais, intelectuais e sociais) e (3) distinguir as condições fundamentais da permanência e mudança social (Ginsberg, s.d:14).
A Sociologia é uma ciência com várias especialidades: Sociologia da Religião, Sociologia Jurídica, Sociologia Política, Sociologia da Família, Sociologia da Educação, só para citar algumas sociologias especiais (Ginsberg, s.d).
Ao levar a cabo esta empreitada ambiciosa, a Sociologia estabelece relações de interdisciplinaridade e complementaridade com as outras ciências sociais. A realidade social é pluridimensional, podendo ser estudada por várias ciências sociais (unidade do social). Porém, ocupem dos mesmos fenómenos (fenómenos sociais totais[2]), cada ciência social aborda-os sob perspectiva diferente (pluralidade do social) (Ginsberg, s.d; Nunes, 2005).
A investigação sociológica é feita metódica e sistematicamente. Métodos são “procedimentos aplicados com propriedade para obter dados, conhecer, descobrir, reconstruir e predizer os fenómenos” (Ferrari, 1983: 77).
Dentre os principais métodos utilizados, podem ser citados o método monográfico, o histórico, o comparativo, etc. Dentre as principais técnicas de investigação, destacam-se a amostragem, o questionário, a entrevista, a análise de conteúdo, etc. (Lakatos & Marconi, 2009).
No seu livro monumental As regras do método sociológico, Durkheim evidencia a necessidade de considerar os factos como coisas (Simon, s.d: 312; Durkheim, 2001: 41).
Propunha que se adoptasse em relação aos factos sociais uma atitude objectiva, observá-los como coisas, reconhecê-los pela exterioridade e pela coerção que exercem sobre os indivíduos e, fundamentalmente, explica-los por outros factos sociais (Aron, 2002; Ritzer, 2010).
Dortier e Molénat apontam cinco regras fundamentais do método de Durkheim:
1)      Definir objectivamente o objecto de estudo[3];
2)      Escolher um ou vários critérios objectivos;
3)      Distinguir o normal do patológico[4];
4)      Explicar o social pelo social[5];
5)      Utilizar sistematicamente o método comparativo[6] (Dortier & Molénat, 2011: 49).

Bibliografia

ARON, Raymond
2002: As Etapas do Pensamento Sociológico, 6ª ed., São Paulo: Martins Fontes

CUIN, Charles-Henry & GRESLE, François
1995: História da Sociologia, Lisboa: Dom Quixote

DORTIER, Jean-François & MOLENÁT, Xavier
2011: “As regras do método sociológico”/“A escola durkheimiana”, in Xavier Molénat (Coord.), Sociologia: História, ideias e correntes, Lisboa: Texto&Grafia, pp. 49-51

DURKHEIM, Emille
2001: As regras do método sociológico, Porto: Rés-Editora

FERRARI, A. Trujillo
1983: Fundamentos de Sociologia, São Paulo: McGraw-Hill

FERREIRA, J.M. Carvalho (Coord.)
1995: Sociologia, Lisboa: McGraw-Hill

GINSBERG, Morris
S.d: Introdução à Sociologia, Sintra: Publicações Europa-América

LALLEMENT, Michel
2008: História das Ideias Sociológicas: Das origens a Max Weber, 3ª ed., Petrópolis: Editora Vozes

MARTINS, Carlos Benedito
1985: O que é Sociologia?, São Paulo: Brasiliense

MOLÉNAT, Xavier
2011: “Introdução: as trajectórias da sociologia”, in Xavier Molénat (Coord.), Sociologia: História, ideias e correntes, Lisboa: Texto&Grafia, pp. 9-17

NUNES, A. Sedas
2005: “A unidade do social e a pluralidade das ciências sociais”, in A. Sedas Nunes, Questões preliminares sobre as ciências sociais, 13ª ed., Lisboa: Editorial Presença, pp. 23-41

OLIVEIRA, Pérsio Santos de
1991: Introdução à Sociologia, 5ª ed., São Paulo: Ática

QUINTANEIRO, Tania et al
2003: “Introdução”, in Tania Quintaneiro et al, Um toque de clássicos: Marx, Durkheim e Weber, 2ª ed., Belo Horizonte: Editora UFMG, PP. 9-23

RITZER, George
2008: Sociological theory, Ed. 8th, New York: McGraw-Hill

SIMON, Pierre-Jean
S.d: História da Sociologia, Porto: Rés


[1] Os factos sociais são, para Durkheim, “maneiras de agir, fixada ou não, susceptível de exercer uma coerção exterior sobre o indivíduo” (Durkheim, 2001:39).
[2] Fenómenos sociais totais são “fenómenos que (…) têm implicações simultaneamente em vários níveis e em diferentes dimensões do real-social, sendo portanto susceptíveis, pelo menos potencialmente, de interessar a várias, quando não todas as ciências sociais” (Nunes, 2005: 24).
[3] “O primeiro passo do sociólogo deve ser, pois, definir as coisas de que trata, para que se saiba e para que ele conheça bem o que está em causa” (Durkheim, 2001: 57).
[4] Normal e patológico são outros dois conceitos-chave em Durkheim (Aron, 2002:531).
[5] “As causas determinantes de um facto social devem ser procuradas entre os factos sociais e não entre os estados da consciência individual” (Durkheim, 2001: 124).
[6] “Uma vez que os fenómenos sociais escapam evidentemente à acção do operador, o método comparativo é o único que convém à Sociologia” (Durkheim, 2001: 137).