1. Primórdios da Sociologia: Contexto histórico,
social, político e económico
“Filha da modernidade, a sociologia nasceu da vontade de compreender a
sociedade e o facto social e de agir sobre ambos”.
(Molénat, 2011: 9)
O neologismo “Sociologia” foi usado publicamente,
pela primeira vez, em 1839, pelo filósofo francês Augusto Comte (1798-1857), no
seu Curso de Filosofia Positiva. Porém,
o processo de formação desta ciência cujo nome Comte atribuíra é anterior a
esta data e goza de um conjunto de condições sociais, políticas, económicas e
intelectuais como pano de fundo (Martins, 1985; Ritzer, 2008).
A Sociologia surgiu da encruzilhada de três
revoluções: política (Revolução Francesa), económica (Revolução Industrial) e
intelectual (o êxito do racionalismo e da ciência) (Quintaneiro et al, 2003; Molénat,
2011).
A Revolução Industrial, representada pela introdução
da máquina a vapor e consequente aperfeiçoamento dos métodos de produção, não
só proporcionou o surgimento do capitalismo como também se fez acompanhar de
incontáveis consequências sociais: desemprego (causado pela maquinofactura),
prostituição, alcoolismo, criminalidade, êxodo urbano, surgimento de bairros de
lata e surtos de epidemias causadas pela falta de condições de habitabilidade,
etc (Martins, 1985; Ritzer, 2008; Molénat, 2011).
No campo intelectual, registaram-se transformações
no modo de pensar: o advento do racionalismo. Filósofos iluministas começaram a
sacudir o pó da superstição e da perspectiva sobrenatural que açambarcavam as
explicações dos fenómenos sociais.
Inspirados nos ganhos dos métodos utilizados pelas
ciências naturais (observação, experimentação, acumulação de dados, etc.), os
iluministas, combinando o uso da razão e da observação, analisaram diversos
aspectos da sociedade e contribuíram para os ideais que conduziram a Revolução
Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), à medida que declinavam a
concepção de que a organização social é estanque e resultante de forças
transcendentes (Martins, 1985; Molénat, 2011).
A Revolução Francesa, sob os ideais iluministas,
desferiu golpes contra a Igreja e a sua influência, contra as tradições e
normas sociais e vários aspectos sociopolíticos e culturais do Antigo Regime.
Em linhas gerais, a revolução de 1789 foi motivada
pelo ideal de abolir radicalmente a antiga forma de sociedade (suas
instituições sociais, crenças, hábitos e costumes) e implementar outra, assente
na liberdade, igualdade e fraternidade, alicerçada na razão e livre de
superstições e crenças infundadas (Martins, 1985).
Dentre as consequências da revolução, são
assinaláveis a crise de valores, a anarquia, a perturbação e desorganização
sociais que se registaram na sociedade francesa.
A procura de explicações racionais e soluções para
as consequências nefastas da industrialização e das insurreições da revolução
francesa forneceu um arsenal de conhecimentos sobre a sociedade que facultaram
o surgimento desta jovem ciência social baptizada sob o nome de Sociologia.
Portanto, pode dizer-se que a Sociologia “é o resultado de uma tentativa de
compreensão de situações radicalmente novas, criadas pela então nascente
sociedade capitalista [transformações tecnológicas, problemas sociais, lutas de
classe, organização do trabalho, etc.] ” (Martins, 1985: 8;16) [Para assistir a um vídeo sobre surgimento da Sociologia, clique aqui].
2. Precursores da
Sociologia
Comte atribuiu o nome à ciência e é conhecido
mundialmente como o “pai da Sociologia”. Entretanto, este título, embora útil
para propaganda desta ciência, é pernicioso e alvo de refutações por parte dos
historiadores da Sociologia.
É pernicioso, à medida que tende a ofuscar
(sobretudo aos leigos) o facto de o surgimento da Sociologia ter sido uma foi
uma produção colectiva e cumulativa. Há que se esclarecer que “a sua criação
não é obra de um único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da
elaboração de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as
novas situações de existência que estavam em curso” (Martins, 1985: 11). Ou
ainda, nas palavras do renomado historiador da Sociologia Pierre-Jean Simon, “a
Sociologia não saiu por uma geração espontânea do cérebro de um qualquer
pensador” (Simon, s.d: 259).
A expressão “precursores da Sociologia” é utilizada
para designar o conjunto formado por pessoas cujas contribuições anunciaram com
antecipação o que hoje é chamado de Sociologia (Cuin & Gresle, 1995;
Lallement, 2008).
Não há consenso quanto à questão dos precursores da
Sociologia entre os historiadores da mesma. Ora são encontrados entre os
filósofos da Grécia Antiga. Ora, entre os políticos do Renascimento. Ora
somente entre os filósofos, juristas, economistas, historiadores e outros pensadores
sociais do Século das Luzes (Ferrari, 1983; Cruin & Gresle, 1992; Ferreira
et al., 1995; Aron, 2002; Lallement, 2008).
Da Antiguidade Helénica ao Renascimento, são mencionados
os nomes de Platão (427-347[?] a.C), Aristóteles (384-322[?] a.C), Santo
Agostinho (354-430), São Tomás de Aquino (1225-1274), Ibn Khaldun (1332-1406),
Nicolau Maquiavel (1469-1527), Thomas More (1478-1535), Thomas Campanella
(1568-1639), Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), Baruch Spinoza
(1632-1677). Dentre estes, grosso modo, são destacados os nomes de Platão,
Aristóteles, Ibn Khaldun e Maquiavel.
Por sua vez, antes do ano de eclosão da Sociologia
(1839), são mencionados dentre os precursores, os nomes de Charles deMontesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778) e Henri de Saint-Simon (1760-1852) [Para assistir a um vídeo sobre os precursores da Sociologia, clique aqui].
3. Sociologia: Objecto
de estudo, método e relação com as outras ciências sociais
Existem inúmeras definições para Sociologia,
variando de autor para autor. Mais do que se tratar do que é Sociologia,
trata-se do que se entende por Sociologia.
Em linhas gerais, pode dizer-se que Sociologia é o
estudo científico dos fenómenos sociais. O seu campo de actividade abrange o
estudo dos grupos sociais, da estratificação, da desigualdade, da mobilidade
social, dos processos sociais (cooperação, competição e conflito), etc. (Oliveira,
1991; Ferrari, 1983).
Para Emille Durkheim, o objecto de estudo da
Sociologia os factos sociais[1].
Por sua vez, para Max Weber, é a acção social.
O sociólogo britânico Morris Ginsberg aponta
sumariamente três principais funções para a Sociologia: (1) fornecer o que se
pode chamar uma morfologia ou classificação de tipos e formas das relações
sociais; (2) determinar a relação entre diferentes partes ou factores da vida
social (por ex., os elementos económicos e políticos, morais e religiosos,
morais e legais, intelectuais e sociais) e (3) distinguir as condições
fundamentais da permanência e mudança social (Ginsberg, s.d:14).
A Sociologia é uma ciência com várias
especialidades: Sociologia da Religião, Sociologia Jurídica, Sociologia
Política, Sociologia da Família, Sociologia da Educação, só para citar algumas
sociologias especiais (Ginsberg, s.d).
Ao levar a cabo esta empreitada ambiciosa, a
Sociologia estabelece relações de interdisciplinaridade e complementaridade com
as outras ciências sociais. A realidade social é pluridimensional, podendo ser
estudada por várias ciências sociais (unidade do social). Porém, ocupem dos
mesmos fenómenos (fenómenos sociais totais[2]),
cada ciência social aborda-os sob perspectiva diferente (pluralidade do social)
(Ginsberg, s.d; Nunes, 2005).
A investigação sociológica é feita metódica e
sistematicamente. Métodos são “procedimentos aplicados com propriedade para
obter dados, conhecer, descobrir, reconstruir e predizer os fenómenos”
(Ferrari, 1983: 77).
Dentre os principais métodos utilizados, podem ser
citados o método monográfico, o histórico, o comparativo, etc. Dentre as
principais técnicas de investigação, destacam-se a amostragem, o questionário,
a entrevista, a análise de conteúdo, etc. (Lakatos & Marconi, 2009).
No seu livro monumental As regras do método sociológico, Durkheim evidencia a necessidade
de considerar os factos como coisas (Simon, s.d: 312; Durkheim, 2001: 41).
Propunha que se adoptasse
em relação aos factos sociais uma atitude objectiva, observá-los como coisas,
reconhecê-los pela exterioridade e pela coerção que exercem sobre os indivíduos
e, fundamentalmente, explica-los por outros factos sociais (Aron, 2002; Ritzer,
2010).
Dortier e Molénat apontam
cinco regras fundamentais do método de Durkheim:
2) Escolher um ou
vários critérios objectivos;
Bibliografia
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GINSBERG,
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2011:
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1991: Introdução à Sociologia, 5ª ed., São
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toque de clássicos: Marx, Durkheim e Weber, 2ª ed., Belo Horizonte: Editora
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RITZER,
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2008: Sociological theory, Ed. 8th,
New York: McGraw-Hill
SIMON, Pierre-Jean
S.d: História da Sociologia, Porto: Rés
[1] Os factos
sociais são, para Durkheim, “maneiras de agir, fixada ou não, susceptível de
exercer uma coerção exterior sobre o indivíduo” (Durkheim, 2001:39).
[2] Fenómenos sociais totais são “fenómenos que (…)
têm implicações simultaneamente em vários níveis e em diferentes dimensões do
real-social, sendo portanto susceptíveis, pelo menos potencialmente, de
interessar a várias, quando não todas as ciências sociais” (Nunes, 2005: 24).
[3] “O primeiro passo do sociólogo deve ser, pois,
definir as coisas de que trata, para que se saiba e para que ele conheça bem o
que está em causa” (Durkheim, 2001: 57).
[4] Normal e patológico são outros dois
conceitos-chave em Durkheim (Aron, 2002:531).
[5] “As causas determinantes de um facto social devem
ser procuradas entre os factos sociais e não entre os estados da consciência
individual” (Durkheim, 2001: 124).
[6] “Uma vez que os fenómenos sociais escapam
evidentemente à acção do operador, o método comparativo é o único que convém à
Sociologia” (Durkheim, 2001: 137).
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